8 ou 80, de forma intermitente
Acordo e não quero nada.
Não quero ter peso, não quero ter coisas para limpar, não quero ter coisas para carregar - até porque dessa vida não se leva nada.
Não quero ter 50 caderninhos diferentes, eu nem sei mais o que tem escrito em cada um deles, e cada um tem meia dúzia de páginas preenchidas, apenas.
Não quero ter 795 canetas, porque eu adoro comprar canetas, coloridas, lindas, ponta fina,ponta grossa, esferográfica e de feltro, mas não uso mais. Não estou estudando, muita coisa eu escrevo digital - mas eu não só tenho as que comprei como vira e mexe eu compro mais umazinha.
Não quero ter 18 hobbies diferentes, aos quais não consigo dar atenção pq não tenho tempo nem pra um, que dirá pra 50.
Não quero ter mais roupas, mais sapatos, mais brincos, porque acho que já tenho mais que o suficiente para me vestir (uso uma calça por vez), me calçar (só tenho dois pés).
Não preciso de utensílios de cozinha para coisas muito específicas, mais atrapalham que ajudam, eu consigo fazer tanto com o básico e um pouquinho de conhecimento.
Não preciso comprar mais livros físicos para ficarem me olhando da estante enquanto tenho 250 livros não lidos já me esperando.
Mas então.
Acordo e quero tudo.
Decoração boho-kitsch, daquelas que tem muita coisa, muito quadro, muita cor, muita almofada de veludinho, elefantinhos de feltro, tapete em cima de tapete.
Quero todos os livros perto de mim, mesmo os que não vou ler de novo, mesmo os que eu sei que não vou ler, pq eu adoro ficar olhando os livros na estante.
Quero um caderninho para cada coisa, pq eu tenho cagaço da vida digital implodir (ler scifi demais dá nisso) e eu ficar sem meus registros (ok, pode pegar fogo, mas sabe como funciona a cabeça da gente velha, né?)
Quero uma mesa de escritório gigante, com canetas, marca-textos, adesivinhos, washi-tape, caixinhas, potinhos, coleção de recortes para journaling.
Quero coleções e coleções de louças, um monte de canecas, pratos de cores diferentes, xícaras com pires, travessas, toalhas de mesa para cada ocasião.
Quero meias fofinhas, blusas coloridas, saias.
Quero uma poltrona para cada cômodo que eu sento para ler.
O problema para mim, aqui, é que essas duas vontades ficam se revezando. Já gastei inclusive um pequeno dinheiro considerável me livrando de coisas (tipo, material de papelaria) que eu senti falta e comprei de volta depois.
Como faz, com essa vontade de ter tudo e de não ter nada? De ser leve, de se bastar com pouco, de ter asas, da casa caber numa mala, com a vontade de criar raízes profundas, de apego ao que conforta, de espaço aconchegante (e lotado!)?
Eu não vejo problema em ter tanto e tantos interesses, mas não há tempo para todos. E há prioridades (há??)
No momento eu estou no vale, eu estou nos livramentos. Às vezes eu olho em volta e parece que tá tudo me sufocando, vou ficando ansiosa. Todos os livros não lidos me acusando, todas as canetinhas e marca-textos, e stabilos secando por falta de uso. Todos os caderninhos, um para cada registro, me pressionando para mantê-los todos atualizados. Tudo em papel, e eu na rua o dia todo e não tendo como atualizar o que está em casa.
Por mim eu saía distribuindo tudo. Mas há possibilidades (enormes?) de eu sair do minimalismo existencial para o Kitsch extremo em breve, e como farei? Será que consigo encontrar um equilíbrio em breve?
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