Transformação: se você está curtindo, está fazendo errado

(tirado do site da Dora, que fez a tradução do inglês. Já faz um ano, mas me impactou muito, continua impactando, e eu não esqueço).

Artigo de autoria de Clive Treadwell, publicado originalmente no site Rebelle Society com o título original Transformation: if you’re enjoying it you’re doing it wrong

Transformação é literalmente o progresso de uma forma para outra.

Se você está interessado em crescimento pessoal e usa palavras como transformação e metamorfose, você provavelmente já viu uma grande quantidade de imagens de borboletas, simbolizando o processo e sua pretendida consequência.
Este será você algum dia! Você é uma humilde lagarta mas você está criando asas, querida! Você será capaz de voar! Então você lê todos os livros, você passa por coaching e você vai em todos os seminários com vários outros ingênuos idealistas aspirantes. Tem vários abraços e compartilhamento e auto-congratulação mútuas sobre como vocês estão salvando o mundo juntos.
Abordado deste modo, o processo nada mais é que um esporte ou um hobby, e talvez seja a melhor forma de prevenir que a verdadeira transformação ocorra mesmo. É como se esconder em plena vista. Por conscientemente (e só Deus sabe o quanto você e os seus amigos adoram usar esse termo) assumir a causa da transformação, você a está obstruindo e aqui estão os porquês:
  • A transformação não é algo que você escolhe, ela é quem escolhe você.Considerando o que está envolvido, nenhuma lagarta em sua plena consciência jamais decidiria se tornar uma borboleta.
  • A transformação ocorre sozinha. Com borboletas, acontece dentro de um casulo que as previne de um mundo exterior. Então, sem amigos, sem abraços, sem conversas brilhantes, sem seminários, sem posts inspiradores do Facebook. Se realmente estiver acontecendo, é mais provável que você delete sua conta do Facebook porque se sentirá muito sozinho.
  • A transformação começa dissolvendo o seu antigo eu. Literalmente, uma vez dentro daquele casulo, a primeira coisa que a lagarta faz é dissolver a si mesma em uma substância amorfa de proteína. Existem algumas estruturas básicas que provém continuidade funcional, mas além disso, é um imenso colapso que faz com que não reste nada da identidade da lagarta para que ela possa se apegar. Se a sua identidade está envolvida em ser transformacional, então na melhor das hipóteses o que você está fazendo é se tornar uma lagarta melhor.
  • A transformação é uma merda. Você não quer falar sobre isso, você só quer que isso termine. Porque sua identidade foi dissolvida, você provavelmente não tem muitos amigos e pode se ver com pessoas com quem você não se identifica como parte do processo. Você pode pensar em suicídio com frequência, e isso é natural porque de certo modo você está passando por uma morte em câmera lenta e é razoável querer acelerar esse processo e terminar logo com isso.
  • A transformação é confusa. Uma lagarta não tem nenhum conceito sobre o que significa ser uma borboleta e se você estiver realmente passando por uma transformação, você estará constantemente tendo que perder seu próprio conceito do que isso pode significar. Sua auto-imagem se torna tão batida que é inutilizável. E este é o objetivo e isso leva muito tempo porque você é muito apegado a ela. Mesmo a auto-imagem de alguém que não é apegado a sua auto-imagem é um tipo de apego que precisa ser dissolvido.
  • A transformação é inevitável. Uma lagarta não pode impedir a si mesma de se tornar uma borboleta porque todo o processo já está codificado e instalado em seu DNA. Quando uma lagarta passa pela metamorfose, o que são chamados de discos imaginários já estão em seus lugares para se tornarem novas características tais como assas, pernas e antenas. A única coisa que você pode fazer para ferrar com o processo é tentar impedi-lo.
  • A transformação é maior que você. Isso deveria te animar quando você estiver pra baixo e deixá-lo pra baixo se estiver se sentindo especial porque você decidiu transformar a si mesmo. Se você tiver sorte, você vai ficar tão cansado de si mesmo e sua própria história de ascensão que você vai apenas se render e deixe que ela lide com você.
Então como você se rende ao processo? Cá estão algumas dicas:
  • Comece parando. Considere parar de fazer aquelas coisas que você acha que vão consciente e deliberadamente te levar a uma evolução pessoal, tais como ler livros de auto-ajuda, fazer yoga, cantar mantras, músicas espirituais e ter conversas profundas e significativas com pessoas que pensam como você. Cheque para ver se elas não são parte de um complexo de ego que precisa ser dissolvido.
  • Suspeite do conceito de pessoas que pensam como você. Seja cauteloso ao projetar seus ideais nos outros e ao colocá-los em um pedestal.
  • Suspeite de suas próprias crenças auto-limitantes que te fazem depender dos outros ou em ideias pré-concebidas sobre como as coisas devem ser.
  • Na dúvida, pare o que está fazendo e espere por direções.
  • Vá em direção ao escuro. Se você encontrá-lo por dentro ou por fora, dá no mesmo. Você classificou seus conteúdos psíquicos em pilhas marcadas como boas e ruins. Os bons você reivindicou para si mesmo e os maus você mandou embora para que se virassem sozinhos. Você precisa deles de volta. Dê as boas vindas a eles quando retornarem e peça desculpas por abandoná-los e ser uma pessoa tão egoísta e mesquinha.
  • Comece a usar a palavra interessante ao invés de bom ou ruim. Isso promove uma abordagem imparcial à sua experiência sem criar uma nova persona de alguém que está levando uma perspectiva distanciada de sua experiência.
  • Cuidado com os punheteiros intelectuais. Essas são as pessoas que só falam e não fazem nada e se você está começando, você provavelmente é uma delas. A maioria das pessoas é assim não porque a conversa é fiada, mas é porque é de graça mesmo. Ao mesmo tempo, percebem que esta é uma estratégia perfeitamente compreensível de navegar pela vida, então não seja muito rígido com eles ou consigo mesmo por tentar. Valeu a tentativa.
  • Resista a tentação de compartilhar sua experiência de modo que a formalize e te faça sentir especial. É ok ser incompreendido e levado a mal uma vez que você não entende a si mesmo ou não gosta muito de si mesmo também.
  • Veja a si mesmo como um processo. Mantenha o processo aberto por quanto tempo conseguir antes de parar com isso temporariamente para pedir ajuda ou conceitualizar o que está acontecendo (isso inclui pedidos de ajuda para entidades como anjos ou guias espirituais). Tente se lembrar que você não faz ideia do que está acontecendo ou o que que está envolvido nisso tudo e encontre força em sua própria ignorância. A estrada poderia tomar um caminho diferente de meia volta em qualquer ponto e você vai passar reto por aquela parede na qual você acha que vai bater. Depois de um tempo você pode até passar a curtir isso.
  • Observe a nova ordem que está emergindo na sua experiência. Isso é o que vai te manter interessado e é o que vai te manter nos trilhos. Ao longo do tempo você vai aprender a confiar mais e se basear mais nisso.
  • Preste mais atenção na energia das coisas e das pessoas. É aí que a ação está.
  • Lembre-se que não é pra ser divertido, você sabia que não seria, e se você tivesse que fazer tudo de novo, você faria a mesma escolha porque você é um fodão ou uma fodona cósmica. Você consegue, soldado!
  • Quando tudo mais der errado, fique puto e resmungue. Se você não for acostumado a xingar, aprenda. Não importa muito a forma que fizer isso. Tudo o que importa é que você se mantenha no caminho e siga em frente.
OBSERVAÇÃO (para mim mesma):

No último ano, fazendo um ano agora, exatamente nesse primeiro de outubro, eu passei por tanta dor. Tanta, tanta dor. Confusão. Escolhas péssimas, Pés pelas mãos. A vida de perna pro ar. Vontade de morrer, de acabar com isso. Vergonha, vergonha profunda de certas coisas. E acho que enfim (ENFIM) eu tô conseguindo chegar em algum lugar. Parei de levar porrada no chão, já tô começando a levantar, devagar. Joelhos ralados, cicatrizes por todo lado. Nó na garganta. Mas tô viva. E as coisas podem voltar a andar - ou eu voltar a andar para as coisas. Ainda tá doendo, pra caralho. Mas pelo menos já consigo ver uma direção e andar.

Um ano. E eu achei que não chegaria até aqui, mas cheguei. Eu quis desistir, mas aguentei.

Estou orgulhosa de mim, apesar de tudo.

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