A lente de aumento da noite
Eu acordo e tá tudo bem. Tenho vários planos. Olho para o apê e penso "preciso lavar os lençóis, levar o edredon para lavar, e fazer comida à noite. E costurar minha toalha de mesa. Na volta eu faço tudo".
Saio para o trabalho realmente com isso em mente. A manhã passa, almoço, já um pouco desanimada. Volto para o trabalho, produzo muito pouco (geralmente a tarde é meu período mais lento). Dá a hora de vir pra casa. E eu penso em tudo que tenho pra fazer e faço... nada.
Deito na rede. Fico olhando para o whatsapp se alguém tá disponível para conversar. Mais problemático, fico esperando o telegram apitar. E as horas vão passando comigo olhando para o nada. E quando dá oito na noite eu penso "é isso, não fiz nada e não sinto que dá mais tempo para fazer; mais um dia perdido".
A verdade é que a noite tem uma lupa. Talvez ela chegue com a lua, talvez seja só porque escurece... mas ela traz na mão uma lupa. Tudo que era migalha de problema de repente fica enorme, gigante, sufocante. Aquele sentimentozinho de estar sozinha vira uma bola de neve de solidão. Aquela questão do trabalho que deixei para fazer depois vira um godzila de culpa e "não sou boa o suficiente" e síndrome do impostor. Os livros na estante me acusam de não serem lidos, e se são lidos, que não estão servindo para nada.
As noites têm sido muito, muito difíceis.
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