DI-NHEI-RO, a vida, o universo e tudo o mais
Tava aqui pensando nas minhas relações de consumo com o mundo e comigo mesma.
Já faz uns meses eu cheguei na conclusão de que não PRECISO mais de nada em casa. Quero? Sim. Preciso? Não necessariamente.
Quero cerâmica artesanal (as da Entorno e da Mosca, aqui de Curitiba, vivem me seduzindo). Quero um moedor de café para ter aquele cheiro de café fresquinho pela casa. Quero toalha de banho daquelas gigantes (famosa "banhão"). Quero um painel de tecido para colocar no quarto. Quero mais luzinhas tipo pisca-pisca. Quero uma máquina de lavar - isso eu quero MUITO. Quero uma batedeira nova, porque a minha de quase dez anos pifou. Quero uma poltrona de leitura. Quero um tênis novo, mais confortável. Quero um tricô novo de frio.
Como deu para perceber, não são objetos imprescindíveis. Eu ainda não comprei as canecas de cerâmica artesanal pq quando meus pais vieram me visitar ano passado eu comprei cum conjunto simples de louça (eu não tinha prato suficiente para todos comermos ao mesmo tempo, rsrs) que veio com 4 xícaras e pires. Eu não comprei um moedor de café porque é o máximo, mas é um luxo - e eu posso comprar café já moído no mercado, inclusive uns de marcas bastante boas; ou pedir para moer na hora no café de esquerda que eu amo frequentar. Decoração é decoração, e não posso dizer que a casa é vazia dela. Querer a poltrona de leitura não quer dizer que eu já não tenho 1) cama 2) sofá 3) rede 4) banquinhos 5) cadeiras, onde posso ler em casa, confortavelmente. Eu tenho hoje 2 all star comprados esse ano, um tênis que comprei na argentina, um antigo de exercícios. A batedeira me é muito útil (eu tenho LER, e sovar massas na mão me deixa dolorida), e a máquina de lavar nem se fala, pelamor. Mas vou morrer sem isso? Não, não vou.
Analisando minhas querências, vejo que grande parte delas vem da exposição ao Instagram - obviamente. Praticamente única rede social que eu uso, e aparecem pra mim lindos "readings rooms" com poltronas e pessoas parecendo felizes nelas. Os instas das lojinhas, que obviamente precisam vender seus produtos, com pessoas tirando selfie de canecas na mão em lindos ambientes com plantas e aparência de paz. Decoração boho, cheia de tecidos e luzinhas. Eu posso passar horas olhando essas imagens, horas gastas no instagram paquerando a vida alheia de diversas formas.
Dito isso, no meio dessa pandemia, fui olhar de perto com o que tenho gastado dinheiro. Como não tenho saído, alguma coisa tem sobrado, mas menos do que eu previa. Pq caralhos, então?
Duas coisas principais: LIVROS e COMIDA.
Livro. Ô relação difícil. Tenho lido muito nessa quarentena, mas não a ponto de conseguir zerar minhas estantes. Só de livros físicos que devo ter uns 150 não-lidos. Então porque continuo comprando? Nos últimos dois meses acho que foram uns 15 livros adquiridos. As justificativas são muitas: "ah, tô ajudando essa editora pequena nessa crise", "nossa, o livro que aquele outro indicou tá tão baratinho"... dos 15 comprados, eu li 5; os outros dez entraram para as estatísticas de "livros na prateleira que vou ler sei lá quando". Isso porque estou baixando muitos livros que as editoras disponibilizaram de graça para ajudar na sanidade da quarentena!
Comida. Essa é foda. Eu tenho lido sobre ayurveda, e já tento levar uma relação melhor com a alimentação do que nunca - sempre lembrando que alimentação é ato político sim. Eu compro meus legumes e verduras, faço bolo, sei fazer pizza, e cozinho bastante bem. Mas na conta tá lá, 3 deliverys por semana, almoço ou janta. Pq? Pq "eu mereço"; pq "fiquei aqui lendo e esqueci de levantar para cozinhar"; pq "tô na tpm, queria uma coisinha diferente". Vários pq.
A verdade é que nenhum justifica. Estou super preocupada com o mundo pós-pandemia, sei que tem uma tsunami de crise chegando, e realmente quero guardar dinheiro - até pq sei também que possivelmente vou ter que ajudar algumas pessoas próximas que vão acabar precisando.
A verdade é que nada do que estou comprando é imprescindível, e eu possivelmente não compraria tanto se eu ficasse menos tempos pendurada na internet sendo tão exposta a gatilhos de vontades (sites de editora, instagram, lembretes publicitários da amazon, fotos de comida).
Eu sei que possivelmente vamos demorar muito tempo para poder viajar de novo (coisa em que eu queria muito gastar algum dinheiro, na verdade). Sei que mesmo que os cinemas reabram, não será seguro frequentá-los até pelo menos ano que vem. Que aglomerações nas ruas deverão ser evitadas, e sentar a bunda nos parques (coisa que mais gosto nessa cidade) será uma possibilidade a ser atrasada.
Então além de ressignificar minha relação com dinheiro, estou tentando pensar na minha relação com minha vida. Com o que me deixa feliz. Com o que eu vou poder fazer sem me sentir podada, ou triste, dentro das possibilidades.
Ficar satisfeita por ter uma caneca de cerâmica artesanal de 60 reais para tirar a foto do meu café pelas manhãs, ou me sentir grata e feliz por não estar brigando para ter dinheiro para colocar café na caneca que já tenho (que inclusive é uma Le Creuset, que também custou 60 reais, na época)? Ficar deprimida porque não tenho como ir ao parque sentar a bunda na grama, ou aproveitar que o apartamento (ok que é o outro, não esse que estou morando) tem uma cobertura privada onde eu posso colocar uma cadeira e sentar ao sol - coisa que tão pouca gente tem oportunidade?
Não estou dizendo que não posso me dar essas pequenas alegrias. Que eu nunca comprarei a caneca que eu quero, ou uma toalha de banho gigante (especialmente pq eu sou grande, e minhas toalhas mal dão a volta no meu corpinho, rsrs). Mas que eu não preciso gastar 500 reais por mês com compras supérfluas, pagando tudo que posso e tenho vontade, para ter uma pilha de coisas que podem esperar. Até porque, é muito mais gostoso ir aproveitando cada compra, curtindo a peça (minhas canecas-chiques-da-Le-Creuset, por exemplo, foram compradas em pares, em três tamanhos, e ao longo de um ano - foram presentes de dia dos namorados, aniversário de casamento e natal).
Ler os livros que acumulei; ver os filmes que estão disponíveis ("ah, não tem nada pra ver no streaming" - que tal consultar aqueles livros de 1001 filmes e catar algum que esteja nele? certeza que vai ter algum mais antigo em alguma plataforma - especialmente pq eu tenho acesso a duas!). Não dá pra ir ao cinema - mas eu comprei uma pipoqueira elétrica MARVILHOSA no início do ano, e eu posso bem assistir aos filmes que jurei que ia no cinema ver - e não fui. "Não tem na netflix ainda". Aluga no Youtube, a maioria sai mais barato que o preço do ingresso que eu não comprei. "Compra comida" - pq é fácil ficar panfletando a "comida de verdade" por aí e pedir uma tonelada de comida porcaria, falando "é só dessa vez", e depois passar dois dias com o intestino desregulado de gordura ou os joelhos em processo inflamatório pq não resisti e pedi algo cheio de queijo.
Bora se cuidar direito, né? Parar de sofrer por antecipação? Olhar dois minutos para o que se tem e ficar feliz? Não cair na armadilha consumista das redes bombardeando coisas que quero, do jeitinho que eu gosto e pesquiso para comprar (lembre-se SEMPRE: se está sendo de graça para você, é porque você é o PRODUTO, não o consumidor; mesmo que você não perceba). Ser mais. Respirar mais. Descansar mais. Curtir mais. Me cuidar mais. Guardar mais dinheiro, rsrsrs.
É bom reler esse post com certa frequência para lembrar dessa epifania linda que me vem ocasionalmente - que ninguém pense que só pq eu escrevi, eu consigo fazer isso!
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