Solidão covidesca
Quando termina meu dia de trabalho eu tomo um chá, café da tarde, sento novamente e penso "e agora?"
Tem sido difícil pensar sobre isso. Parece tão simples, mas não é. "E agora, deixa eu ver um filme" (meu cérebro fala "de novo?"); "terminar de ler um livro" (mais um?); "cozinhar alguma coisa" (depois engorda horrores na quarentena e não sabe pq...).
A verdade é que eu posso fazer tudo isso, junto ou separado, e continuo com a sensação de inutilidade. Como se eu precisasse produzir, obrigatoriamente. Chegar ao final da semana elencando tudo que fiz por mim e pelo mundo. "Trabalhei direitinho, salvei 30 criancinhas da fome, alfabetizei pessoas, propus a paz mundial em um tratado de 3 mil páginas!"
Não.
Para.
PARA.
Funcional no momento é ME MANTER SÃ.
Não adianta. O que eu queria mesmo era SAIR. Ver pessoas, ver a rua, comer em restaurante, beber no boteco, usar minhas roupas (eu nem tenho tantas, nem tão variada,s mas eu queria usar minhas roupas por aí), meus brincos. Comprar passagem, planejar viagem, planejar férias.
Mas não dá. E sabe lá QUANDO vai dar. Já pensou nisso? QUANDO vai ser seguro respirar o mesmo ar que diversas pessoas no cinema? QUANDO vai ser seguro ir pro boteco, dividir ar, saliva, copos levemente mal lavados, comer batata frita do mesmo prato? QUANDO vamos poder viajar de novo, colocar o pé na areia da praia, o ar viciado de um avião? A gente não tá podendo se empaçocar num ônibus para o outro lado da cidade!
Então a verdade é que o boteco vai ter que ser a mesa da sala, SIM. Que ao invés de "vou ao cinema", é alugar filme pela internet, listar o que quero ver nos streamings - tem cinema virtual tipo o que o Cine Passeio tá propondo. Colocar brinco pra trabalhar dentro de casa (porque não?). Pensar em qual restaurante eu iria e pedir alguma coisa para entrega (preferencialmente sem ser pelo ifood) - e quando chegar, comer na mesa, com pratos e garfos, e sem TV, como seria no restaurante. Um escalda pés quentinho, uma caneca de chá. Visitar museus online, redescobrir uns hobbies.
Isso obviamente falando como mulher que mora sozinha e não tem obrigação com filhos. Não preciso me responsabilizar por outrem (só a Frida), pensar em colégio, saúde de terceiros...
A gente luta com as armas que tem. Eu tô tentando entender as minhas.
Essa semana tem muita coisa mudando. Eu sinto como se estivesse acontecendo uma quebra, um dique arrebentando. Tem tanta coisa que eu falo, há tanto tempo, que quero fazer. Condutas que não condizem com meus valores, mas que me dá preguiça de mudar o hábito; Coisas a jogar fora. Emoções a jogar fora. E tem outras querendo nascer também. Coisas a impor - ao mundo e a mim mesma.
Isso tudo aí junto tá dando um pouco de trabalho para meu cérebro, fico um tanto exausta - mas não estou triste, não estou cansada, nem irritada. Até a ansiedade está de boa, acredita? Eu acho que até ela sabe que tá na hora de passar por isso.
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