Estranhamento
Não sei se frustração é bem a palavra.
A casa está estranha. Não sei se falta cor, se falta móvel; se sobra móvel, se sobram coisas. Eu ando pra lá e pra cá dentro dela e parece que me salta aos olhos algo que falta - e eu não sei o que é. E eu não gosto de pensar que coisas "faltam", pq eu sei que tenho até coisas demais.
Os livros não me recebem de braços abertos; abro um e outro, pulo daqui prali, e as palavras não me recebem.
A geladeira e a despensa tem coisas dentro; os lugares onde costumo pedir comida estão lá, mas eu não sei o que comer. Eu faço, eu pego, eu peço, mas ainda não era bem aquilo, a vontade de alguma coisa que não sei nomear ainda tá lá.
O que tá fora do lugar tá dentro. Acho que se me sacudissem hoje, ia fazer barulho de coisa solta dentro de caixa de papelão. Peça solta dentro de relógio.
Eu só não consegui entender ainda o que é. E enquanto isso eu ando, pra lá e pra cá, ouvindo a peça fazendo barulho.
Tô me sentindo estranha. Como se tivesse em uma roupa justa demais. Apertada. As coisas não me cabem, eu não caibo nelas, e eu não tô sabendo como lidar muito bem.
Tem horas assim. Tem dias assim. Tem épocas assim.
E seguimos.
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