Fé
Fé e religião são coisas diferentes.
Ser uma pessoa sem religião pode ser bastante solitário, sabia?
Eu frequentei a Igreja Congregacional quando era bem novinha, entre os 10 e 12 anos (e meu primeiro beijo - uma bitoquinha de nada - foi num retiro de carnaval, aos 12).
Depois a católica, entre os 13 e 14 - mas larguei o catecismo por achar tudo muito hipócrita... continuei na Pastoral da Alimentação porque meu irmão e primos estavam, e porque achava lindo o trabalho de levar sopão para os necessitados.
Mais ou menos nessa época eu já estudava wicca, paganismo e misticismos em geral. Fiquei nas fases da lua e tarô e mitologias pagãs por alguns bons anos.
Aos 17 eu comecei a frequentar o mesmo centro de umbanda de todos os meus amigos. Aos 18 coloquei roupa pela primeira vez e logo fiz iniciação e imantação. Saí aos 21, e fiquei devendo a feitura - que já havia sido pedida. Isso foi em 2008, e desde então eu não frequento e me identifico como de nenhuma religião. Estudo budismo de forma intermitente há uns 6 anos, pelo menos.
Durante muito tempo eu fiquei sem nada. Sem religiosidade e sem fé. Não sei se a palavra é desilusão, e não sei exatamente onde está a raiz disso, se na racionalização científica, se na comparação das coisas na minha cabeça, se na falta de fé que eu já sentia antes, se na falta de disciplina em me manter "religiosa".
Religião é uma série de códigos e crenças para a sua fé, e eu estava tanto cansada quanto incrédula com esses preceitos - e não acho justo você se manter na religião se você não quer levar os preceitos a sério. Manter sua fé, sim; você não precisa estar na igreja pra acreditar em deus. Mas fazer parte da religião, com as crenças ritualísticas, e brigar com elas... não acho válido.
Nos últimos anos eu me aproximei novamente aos misticismos. Tenho lá minhas pedras, gosto dos meus incensos. (acho que) acredito em energias. Voltei a ter e tirar tarô e a ter meus pequenos rituais em datas específicas - me fazem bem. Mas continuo sem saber "em que" (ou "em quem") acredito.
Não me entendam mal, eu queria ter fé. Uma fé forte, como quando eu era do Centro. A convivência aos sábados, as festas no terreiro, a sensação de fazer parte, de estar lá para ajudar, para fortalecer, para evoluir o espírito. Mas eu era muito nova, tinha muita gente nova no terreiro, e eu não aguentei crescer como pessoa naquele espaço, naquele momento. Tinha, sim, muita fofoca, muito julgamento, muita exclusão, e eu não me sentia mais acolhida - e larguei não só o centro como minha fé.
A verdade é que religiões são absorventes. São modos de vida - e algumas são mais que outras. Ser umbandista é fazer preceito, lembrar das quizilas, de cor de roupa, de coisa que pode comer, que deve comer, que não pode, que não deve, e coisas que não podemos, e dias inteiros ocupados com as festas, com o terreiro, com o espaço, e eu não conseguia mais passar tanto tempo absorvida nisso. Sair do centro foi, na época, um alívio.
Busquei o budismo porque é uma religião não teísta. Você tem preceitos religiosos, mas não tem um deus.
Tem dias que eu queria ter fé em alguma coisa. Eu passei por coisas suficientes, e não consigo negar o que eu passei. Mas não sei no que acredito. Energias, deuses, orixás, entidades, mitologias, crenças. Sei que não crer em nada, ou não saber no que se crê, pode ser solitário.
Para pra pensar: se você é crente e se sente só, você reza ao seu deus. Você se sente amparado, você acha que tem alguém passando por aquilo com você. Se você é judeu, muçulmano. Se é católico, você tem ainda os santos - e se é hindu, muito mais legal, tem deus à beça para você chamar. Se é das religiões de raiz afro, você tem orixás, e esses são ainda mais próximos. Exús, na umbanda, que andam ainda mais perto de nós (não confundir com Exú orixá). Não vou entrar em todas as questões que podem ser problemas nisso - culpar os céus quando não conseguir algo, pedir a achar que vai cair dele, usar como muleta ou como desculpa. Nem vou falar dos problemas de religiões (não da fé) - charlatães, aproveitadores, e afins.
Aqui é só sobre fé mesmo. Eu queria mesmo crer de novo, crer a ponto de não me sentir espiritualmente sozinha. Mas acho que não é algo que se opte, sabe?
Hoje eu faço minha yoga, medito na minha almofada, leio ainda sobre budismo, tiro meu tarô nas viradas de lua e de estações, acendo meus incensos... mas não sei o que é a fé ou onde estaria a minha.
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