Tá foda, mas...

Hoje, lendo uma newsletter, apareceu um print de um quadro. Nele tá escrito, em letras azuis, garrafais: "Tá foda, mas eu consigo".

Fiquei irritadíssima. Estou no meio de uma crise, um burnout, uma exaustão, sei lá como chamar isso, e essa foi a frase que sempre usei e me deixa ainda mais nesse estado.

"Tá foda, mas eu consigo". Tá difícil pra caralho, mas é claro que eu tenho culhão para aguentar o rojão, né? Sempre tive, pq não teria agora? Eu consigo. Eu consigo engolir que tá doendo e dizer que vai passar, é só continuar, Keep calm and carry on, vai passar, eu vou chegar lá.

Fiquei muito irritada. Eu não tenho que conseguir porra nenhuma. Tá foda pra caralho sim, e eu não sou obrigada a conseguir. "Persista". Não quero. NÃO QUERO.

Mas então a irritação inicial passou.

A culpa não é da frase. Eu sempre consigo. Se eu estou aqui, viva, aos recém completados 36 anos, é porque passei pelos piores dias da minha vida, e continuo aqui.

O erro não é da frase, é do foco.

"Tá foda, mas eu consigo". Sim, eu consigo jogar pro alto toda a pressão e tentativa de controle. Eu consigo largar o que tá me machucando. Eu consigo dizer "foda-se" pra quem está esperando alguma coisa de mim (spoiler: geralmente ninguém tá esperando grandes coisas, tá cada um preocupado com seu próprio umbigo). Tá foda, mas eu consigo fazer o esforço de ignorar as expectativas que eu crio sobre o que as pessoas estão criando de expectativas sobre mim.

Tá difícil, tá pesado, eu não sei se sei lidar com o caos, com as escolhas, com as decisões e as consequências delas, mas eu consigo. 

O problema não é a frase, é o que fazemos com ela.

Tá foda, mas eu consigo (agora sim, com a entonação certa). Uma ótima frase.

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