Um mês
Um mês. Período de trinta dias que parece muito longo, ou muito curto, dependendo do referencial.
Um mês em casa pq tive um burnout foda, e isso me paralisou.
Um mês em casa, e remexendo na cabeça, com psiquiatra e psicólogo.
Eu olho em volta e me pergunto o tempo inteiro "e agora? o que eu faço agora?". Uma pergunta com aspectos curtos (o que eu faço agora, hoje, nesse dia) e longos (o que eu faço de certos aspectos da minha vida a partir de agora).
Remexer na cabeça é sempre uma coisa. É tipo limpar uma casa que foi negligenciada por muito tempo.
Levantar os tapetes e olhar o que arrastei lá pra baixo, o que escondi em gavetas, o que entulhei nos meus armários mentais. É coisa pra caralho, sem or. E como lidar com isso tudo? Junta tudo, joga fora e depois ir adquirindo novamente o que eu acho que preciso? Parar para olhar cada coisa, uma por uma, e fazer o processo se estender para sempre (fora que, quem faz faxina sabe: olhar coisa por coisa faz a gente cansar no meio e largar a faxina pra lá - ou terminar de qualquer jeito, enfiando tudo de volta nos armários).
Estou mexendo em alguns armários. Olhando algumas coisas da Paulla que eu não sou mais, outras das versões de Paulla que eu queria ser e não fui, ou quase fui e acabei não fondo.
Uma hora a gente percebe o peso que essas coisas são. O peso de carregar malas de coisas que você não vai usar, sejam sentimentos ou livros, roupas que não cabem ou lugares mentais que não existem mais (ou nunca nem chegaram a existir, ficaram no rascunho).
Em alguns momentos acho que só dá pra ficar deitada, olhando pra cima, presa nos próprios pensamentos, enquanto me culpo por "não estar fazendo nada". Minha cabeça tem me deixado exausta, direcionando toda a energia do meu corpo pro meu cérebro. Meia hora sentada na frente do pc, mas perdida em pensamentos, olhando o lado de fora, mas sem ver.
Aí levanto, vou olhar minha estante, catar algo para ler, e encontro vários livros de alguma versão da Paulla (a que não existe mais ou a que nunca chegou a existir), e isso me dá gastura. Quero levantar e tirar eles da minha estante. Livros que comprei há 6, 7, 8 anos, e nunca li, e possivelmente não lerei. Mas tirar eles dali é dizer adeus pra construção dessa Paulla. A que um dia quis estudar História da América Latina para trabalhar com isso. A que queria ler os clássicos (essa eu desisti faz tempo). E como abrir mão, deixar ir, essas Paullas que não existem? Como me desapegar delas?
Veja bem, não falo isso como capricho: é que a Paulla que sou hoje e a que eu quero ser (realisticamente) tá meio sem espaço. Decorar uma casa já ocupada é muito difícil, tem que tirar alguns quadros para caber outros - mas como escolher qual quadro tirar? Dizer tchau praquela paisagem que te acompanha há tempos (que hoje a gente até acha horrorozinha, mas que tem valor sentimental)?
Pois é, eu tô nessa. Nessa encruzilhada, nesse nó mental, que parece que aperta demais e me deixa sem ar.
Um mês, lidando com alguns demônios e encarando algumas encruzas (Exú que me ajude, rsrs).
Veremos onde isso vai dar.
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