Quantas vidas cabem numa vida?

Volto a trabalhar semana que vem, dia 30/08. Depois de 4 meses e um pouco mais de licenças de saúde, tá na hora de encarar a realidade de novo.
Abri a agenda do trabalho, para arrumar alguma coisa que eu nem mesmo sei o que é, e fiquei surpresa com tudo que li nela. Ver as anotações sobre a DIRF, números de abonos, processo SEI, férias judiciais, PSS patronal... Como eu aprendi isso tudo? Em que momento dos últimos 3 anos tudo isso veio parar na minha cabeça?
Parece outra vida.
Esses 4 meses em que não fiz nada. Sinto como se fosse um tempo "apagado". Não aprendi nada, não estudei nada, não trabalhei em nada. 4 meses que separam minha próxima vida da vida anterior.
Vida anterior em que fui prum setor que não conhecia e não sabia nada, e aprendi tudo em tempo recorde. Aprendi sobre aposentadorias, impostos, pagamento de pessoal, leis, instruções normativas. Em que sem querer virei chefe, em que sem querer tive uma equipe. Em que me preocupava em não dar conta, a síndrome de impostora no máximo, pensando em quando alguém ia perceber que não servia pra aquele cargo.
Que minha mente vagueia muito em horários impróprios, que de repente eu só queria levantar e andar um pouco mesmo que os e-mails estivessem acumulando e a mesa pegando fogo. Que eu quero que tudo seja feito direitinho e me esforço muito, mas tenho uma.... Não é preguiça, é como se fosse uma falta de ânimo que me toma às vezes. Nhé.
Na minha última vida eu morava sozinha, com minha cachorra, que dormia na cama comigo. Era chefe da SEDAP. Encontrava meu marido aos finais de semana, tentava manter as plantas vivas, ouvia podcast toda manhã. Aqui meu calendário não é o gregoriano nem o lunar, meu calendário é o que o governo libera para a folha de pagamento. Meu mês começa por volta do dia 20, e termina perto do dia 14. Eu não posso tirar férias longas, pois preciso assinar a folha. Não sei se jogam a responsabilidade sobre mim, ou se eu que a asumo como um escudo (ou uma lança).
Acordei 4 meses depois, e moro com meu marido. Não durmo com minha cachorra. Não estou mais na sedap.

Eu e minha boca grande sempre nos metendo em encrencas profissionais. Eu sempre vendo coisas que poderiam ser feitas diferentes, e abrindo a boca pra falar sobre isso. Eu juro que vou ficar quieta, só vou ver se coisas acontecendo, mas não funciona: quando vi já tô dando ideias e mais ideias. E a resposta das pessoas pra isso geralmente é "vai lá e faz". E eu me fodo, pq tento mesmo fazer. Quando consigo, a sensação de ogulio me preenche; quando não consigo, a frustração é tanta que mal da pra segurar. Eu me cobro, eu PRECISO conseguir. Sabe onde isso me levou? Para dois burnouts.

Ok, olho de novo pra agenda, com tudo isso na cabeça. A fitinha de marcação está na página da semana 16, quando deu o tilt. 18 de abril, quando comecei minhas licenças, e dali pra frente as minhas páginas profissionais estão em branco.
Volto ao trabalho semana que vem, para outro setor. Começar tudo de novo, aprender mais coisas que eu vou me perguntar como entraram na minha cabeça. 

E agora?



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um escritório pra chamar de meu

Eu não sei o que eu quero fazer

Começar tudo de novo, de novo