Grevista
Meu pai "virou" estivador pouco depois que eu nasci, acho que em 1989. Bom, mais assumiu do que virou, visto que era seu direito como filho e neto de estivadores. E eu cresci ouvindo sobre relações trabalhistas daquele meio, e demorei pra entender que nem todos os lugares (na verdade, quase lugar nenhum) tinham relações daquele formato. Não era estatutário, não era CLT. As relações de mão de obra da estiva eram baseadas em sindicalismo, e nas normarivas negociadas diretamente com o sindicato.
Meu pai sempre foi envolvido com isso, e anos depois, foi um dos diretores eleitos (eu fui em sua posse, lembro bem).
Desde pequena ouvia ele responder aos "bom dia" que recebia com "a luta continua, companheiro". Fui ficando mais velha e aprendendo o que acontecia com a força de trabalho portuária através das conversas em família com meu velho.
Corta, passa pro presente.
Sou servidora pública federal, técnica administrativa na área de educação. Estou em greve, a reivindicação inicial são os ajustes salariais, que não ocorrem desde 2017. Aderi a greve? Óbvio que sim. Mandei foto do piquete no grupo da família, e a resposta foi "tem que reivindicar os direitos, vivaaaaa!".
Tô rindo aqui, mas isso me impactou. Me impacta ver quantas pessoas não tem apoio para se juntar a luta, não tem mais vontade, não tem força, e eu sempre tive. A sorte que tenho de ter a família que tenho. E o alívio de saber que eu puxei os ideais certos, que fui bem criada. Que não falo que grevista é "tudo vagabundo", que não caio na falácia da meritocracia... Eu poderia chegar a essas conclusões sozinha, mas definitivamente ter isso vindo dos meus pais e parte intrínseca da minha criação, é um tesouro que eu sinto que tenho.
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