As coisas bonitas - que me deixam feliz
Às vezes eu não sei se eu desisti das coisas por motivos de O MUNDO TÁ ACABANDO MERMO ou se eu estou me punindo por algum motivo.
Mas eu sei que abro mão de muitas coisas em nome da praticidade, do "não adianta" e, principalmente, do "pra que serviria isso?".
Eu geralmente abro mão de coisas bonitas. Coisas que me fazem feliz, mas que eu fico achando que é uma felicidade fútil, que eu tento me convencer que não preciso, que não é necessário, que é supérfluo.
Canetas coloridas, pq gosto de escrever e ver tudo coloridinho depois. Meu cérebro faz "pq vc não economiza esse dinheiro e usa só canetas pretas?" - mas que graça tem? é bonito, minimalista, classudo, mas não é divertido, e nem me deixa feliz.
Canecas. Canecas é um problemão. Eu só uso UMA caneca por vez, pq só tenho uma boca. Então, teoricamente, só preciso de UMA caneca. Mas se eu já tenho essa uma caneca, e me apaixono por uma caneca diferente, em formato de caldeirão, de gatinho, de bichinho... para que comprar essa caneca e deixar a outra mofando em casa, certo? CERTO? Não sei. Eu não preciso comprar 78 canecas e fazer uma coleção que não vou usar, mas posso ter mais OUTRA, pelo menos. Não vou morrer, minha mão não vai cair e meu bolso não vai sofrer se eu comprar outra caneca.
Quebra-cabeças. Eu A-DO-RO montar quebra-cabeças. O "problema" é que depois de montado, o que eu faço com ele? colo todo e enquadro, ficando aquele troço brega na parede? desmonto e guardo de novo - mas que graça tem isso? Mas também, pq não? Me impedir de ter a felicidade de montar o joguinho, que me estimula, me desafia, me deixa ligada... Não posso guardar na caixa de novo depois? Montar outra vez mais pra frente? Até doar para alguém depois de montado e desmontado, não é um problema. Mas não preciso ficar SEM fazer, é até idiota.
Adesivos. Hoje em dia eu até compro bastante, especialmente em feiras autorais, adoro o estilo diferente de cada design - e trabalhar com tantos designs me fez valorizar ainda mais o esforço deles. Mas eu ainda tenho pena de colar, acredita? Colar numa agenda que vou jogar fora no ano seguinte, e ficar sem o adesivo pra sempre. Mas adianta manter ele guardado dentro de uma caixa dentro da minha gaveta, sem uso? Não é desperdiçar mesmo assim? Eu fico tão feliz em decorar uma página com adesivos e desenhos e linhas coloridas, mesmo que seja para olhar só por aquela semana, só por aquele uso. Acho que o objetivo deles é me fazer sorrir, e dentro da caixa, guardados a salvo, eles não fazem isso. Aprender a gastar. E depois, repor.
Livros. Aí é aquela discussão, né? Para que comprar mais livros com tantos não lidos ainda em casa? Mas eu me sinto muito feliz em olhar minhas prateleiras e ver todos os títulos que eu ainda não li. Todas as opções que eu tenho. Fora que COMPRAR livros me deixa muito muito satisfeita. Ler a sinopse e pensar "taí, curti!". Ver o preço. Pensar nele comigo. Pensar que um dia eu vou ler aquela história, mesmo que eventualmente eu acabe não lendo, pq o momento para ela passou, pq não acho mais tão interessante, pq tenho outras prioridades. Que seja. Eu gosto de livros.
Mais que na hora de abraçar simplesmente o que me deixa feliz por si só. Não preciso de motivo. Não preciso me justificar.
E vamos considerar... se o mundo tiver mesmo acabando, se amanhã anunciarem racionamento de água, petróleo no fim, guerra civil, guerra nuclear... o que vai ter adiantado eu não ter usado as caralhas das canetas coloridas? O que vai ter adiantado eu não ter comprado minha caneca, que durante um tempo e seu uso, me fez sorrir, me deixou feliz? O que vai adiantar eu não ter ido ao museu ver o que outras pessoas fizeram, que são lindas, e também deixaram elas felizes?
A verdade é que eu não preciso me conter com o que me faz sorrir.
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